quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A 18ª de Nadal



Os fãs de Rafael Nadal que me desculpem, mas o Federer perdeu a partida.

Esses dois jogadores tem estilos de jogo completamente diferentes e quando eu digo completamente é completamente MESMO. Tudo começa pela nacionalidade de Rafa e Federer. Um é espanhol, o outro é suiço. Um é latino e o outro germâmico. Nadal vibra a cada ponto, Federer vibra (talvez) a cada final de set ganho. O box do Rafael tem gente em pé, gente gritando e gesticulando a cada ponto. Já o box do Roger tem um técnico com cara amarrada séria e uma esposa que, coitada, sofre calada (e sofre mesmo. É só ver as caras que ela faz).

A verdade é que talento às vezes pode ser um problema. Hoje foi só mais um exemplo disso. Roger Federer é dono de um dom muito especial, ele sabe disso e abusa dele sempre que pode (e não pode). O suiço não gosta de seguir muitas táticas, ele joga na intuição e pronto (isso explica porque ele ficou muito tempo sem técnico e me faz acreditar que Paul Annacone deve ter muita dificuldade de disciplinar o suiço). Aí acontece que contra os jogadores normais, o Federer faz o que quer, pode até perder um set, mas o talento dá conta do recado e ele normalmente vence. Já contra Rafael Nadal, que não é um jogador normal, ele não pode fazer isso, mas faz. Eu acho que às vezes o Federer se esquece de quem está do outro lado da quadra e subestima o adversário.

Hoje, como nas outras 17 vezes em que ele perdeu para o espanhol, Federer jogou umas bolas que era claro que Nadal iria pegar. Aliás, não existe muito esse negócio de bola indefensável contra o espanhol. Sabendo disso, o suiço não deveria dar nenhuma bola como ganha, não deveria ir para a rede com voleios no meio da quadra, deveria atacar SEMPRE o backhand do adversário e sacar e volear muito raramente. Mas não é que ele insiste em não dar bola para essas táticas e faz o que dá na telha?!

Aí entra um outro componente, que é na verdade o principal deles. Perder para Nadal parece ferir mais do que perder para qualquer outro jogador. É claro que o suiço fica transtornado quando perde um set e muito mais quando perde o jogo. Federer tem os “momentos viagens” dele na maioria das partidas, inclusive contra Nadal. É exatamente nessas horas em que o espanhol aproveita, quebra e vence. Essas viajadas ficam por conta do talento do Federer e e os aproveitamentos do Nadal ficam por conta dele ser quem é. Aí, quando o suiço volta para o jogo já é tarde demais. Ele já perdeu muitos break points, já perdeu muitos saques, não dá pra voltar atrás.

Hoje, isso aconteceu no 1º set quando estava 4/1 Federer e Nadal conseguiu levar o jogo para o tie break. Nesse momento ainda deu tempo de se recuperar e ele ganhou o set. No game seguinte, o suiço quebrou o espanhol e em vez de confirmar a quebra, cometeu 3 erros bobos e perdeu o saque. Conclusão: set Nadal 6/2. No terceiro set foram incontáveis as oportunidades que o suiço teve de ganhar. No tie break ele deixou Nadal abrir 6/1, lutou, chegou a 6/5, mas perdeu o ponto principal. E finalmente no último set, mais oportunidades de quebra e mais viagens. Aí também ele estava nervoso, com uma pressão enorme nas costas e a mão pesou várias vezes. Assim, perdeu de 4/6. Dois golpes chamaram a atenção nessa partida: a direita do suiço que parou muitas vezes na rede ou na área de duplas e o saque fechado do espanhol que fez um grande estrago.

Quando digo que Federer perdeu, não estou desmerecendo o jogador que é o Nadal. Que ele é fora do normal, tem uma vontade imensa de jogar tênis, que ele empolga, emociona, faz a gente vibrar e é um dos melhores tenistas do mundo, eu sei e o admiro demais por isso. Só que na minha opinião, o Federer tem potencial para ser melhor jogador. Se o suiço parasse de perder o foco nas partidas contra o espanhol, Nadal não ganharia uma, porque tática e talento juntos são invencíveis.

O psicológico do Federer quanto ao Nadal já melhorou muito, na minha opinião. Para quem acompanha a rivalidade dos dois desde o início, você vai lembrar das partidas em que Federer já abaixava a cabeça no 2º set e na vez em que ele perdeu de zero em Roland Garros. Hoje, o suiço consegue carregar bem os sets e fazer excelentes partidas, ele tem motivação para encarar o jogo até o final e dar um belo espetáculo. Mérito do espanhol, é claro, aproveitar as oportunidades abertas pelo suiço (apesar de eu achar que isso é mais do que obrigação de qualquer que seja o jogador). Nadal faz muito poucas alterações no seu jogo contra Federer e o suiço já deveria saber como ganhar dele. Bom, não foi dessa vez que aprendeu.

Podemos tirar algumas conclusões dessa partida:

- Vale a pena acordar às 6:30 da manhã para assistir a Nadal vs Federer.

- Nadal está mais do que nunca motivado para não só ganhar o torneio, mas para fazer uma excelente temporada e recuperar o número 1.

- Aposentadoria não é uma palavra que está no dicionário de Roger Federer.

Um comentário:

  1. O Federer tem que aprender que o Nadal raramente desiste de correr atrás de uma bola! Por mais difícil que ela seja e mesmo que ele nem chegue perto, ele vai tentar. Na minha opinião Federer acha que por ele ter um tipo de jogo mais bonito, mais encaixado (um talento nato), os pontos virão naturalmente... Com outros jogadores pode ser que isso aconteça, mas o Nadal com sua técnica, agilidade e MUITA força de vontade,quebra esse pressuposto! E eu acho que 18 vezes já poderiam ter servido como lição! Mas não deixou de ser um lindo jogo com 2 talentos que, por serem tão diferentes, conseguem carregar gregos e troianos para o court principal! Adorei seu texto! Bjos
    Nathalia

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